O Ecumenismo da Igreja



João 17.20-26


A palavra "ecumênico" e uma expressão que aparece 15 vezes no Novo Testamento, tendo como significado "todo o mundo habitado", "aterra", "o universo". Por sua vez,o movimento ecumênico, como o conhecemos hoje, teve origem entre os evangélicos no século passado, durante a fase de expansão missionária. 

A base bíblica para o movimento ecumênico sempre foi a oração sacerdotal de nosso Senhor (Jo 17.20,21). Hoje, no mundo, temos cerca de vinte mil denominações cristãs, e a cada dia surge mais uma. Várias são as razões para tanta divisão. 

O ecumenismo é a oportunidade que cada cristão tem de amenizar este lastimável erro diante da vontade do Senhor. Contudo, há um autêntico preconceito, no meio evangélico, no que diz respeito ao movimento ecumênico. Isto acontece porque não sabemos bem ao certo o que é ecumenismo. 

O ecumenismo não é:
• Juntar todos as igrejas numa só, como quem faz sopa no liquidificador;
• Deixar de crer no que ensina a sua Igreja para viver em paz com todo mundo;
• Fazer de conta que é tudo a mesma coisa, que não há diferenças nem problemas;
• Um jeito simpático de seduzir o outro para a nossa Igreja;
• Aceitar, sem espírito crítico, o que vem de outros grupos, já que todos somos da mesma família cristã;
• Exigir que o outro se acomode às nossas doutrinas e tradições;
• Manter boas relações quando estamos com membros de outras igrejas só por boa educação, sem sinceridade na valorização do outro.
Mas, ecumenismo é:
• Conversão de coração para reconhecer o que há de bom nas outras igrejas cristãs;
• Ficar alegres com o muito que temos em comum, em vez de ficar buscando motivo para briga;
• Procurar conhecer as outras igrejas, sem preconceito e sem ingenuidade;
• Colaborar com os irmãos de outras igrejas em tudo que ajuda o progresso do projeto do Reino;
• Orar pela unidade, com seriedade e ternura;
• Tratar as outras igrejas como gostamos que a nossa seja tratada;
• Buscar a verdade juntos, lealmente, no desejo sincero de sermos, todos, cada vez mais fiéis a Jesus. 

Ecumenismo é a busca de uma unidade, de uma comunhão que ainda não se conseguiu plenamente. A plena unidade visível das muitas comunidades cristãs acontecerá quando e como o Espírito Santo quiser. Até lá é bom consideraras seguintes reflexões:

1 - A CONSCIÊNCIA DA INTEGRALIDADE DA PRÓPRIA FÉ

Nas relações com as outras comunidades cristãs, os cristãos precisam ter consciência dos limites de sua própria fé. Ter consciência da integralidade da fé é ter uma perfeita identificação dos princípios doutrinários e práticos da comunidade de fiéis.

Em termos ecumênicos, isto não pode significar dogmatismo e intolerância, mas um conhecimento de "si mesmo" e do "outro", com o objetivo de lançar fora os receios e estimular o mútuo respeito.

Não podemos, com a prática do ecumenismo, perder a própria identidade. Misturar tudo e não saber mais em que crer, desconhecendo a própria doutrina, não ajudará a ninguém, só se estabelecerá o caos.

É prudente esclarecer que, quando nos referimos ao ecumenismo, estamos falando de uma prática ecumênica cristã, isto é, entre os cristãos, ou entre as comunidades cristãs.

Entendemos que, o chamado "macroecumenismo", isto é, o diálogo inter-religioso que é o contato e o relacionamento com grupos não-cristãos (religiões de origem africana e indígena, religiões orientais, judaísmo, islamismo, espiritismo etc), é completamente inadequado como uma prática cristã para os dias de hoje.

Nesta questão, serve de critério e orientação, uma antiga ideia de Santo Agostinho que dizia: "Nas coisas essenciais, a unidade; nas coisas secundárias, a liberdade; e em tudo, a caridade".

No Novo Testamento, registra-se a história de Simão, da cidade de Samaria, que tentou abraçar a fé mesmo com a prática da magia para enganar e iludir as pessoas. Pedro mostra-lhe a completa incompatibilidade entre as duas coisas (At 8.9-25).

Unidade não é a mesma coisa que uniformidade. Ser diferente pode ser, dentro de certos limites, uma experiência enriquecedora. Por isso, é necessário ter consciência da integralidade da própria fé.

2 - TER TOLERÂNCIA RELIGIOSA E RESPEITO MÚTUO

O Evangelho registra um episódio em que os discípulos são advertidos por Jesus ao se mostrarem extremamente intolerantes com um certo homem que expelia demônios em nome do Senhor, mas não fazia parte do grupo (Lc 9.49,50). Jesus sempre ensinou a tolerância.

A intolerância e o desrespeito é um grande pecado contra o movimento ecumênico.

Infelizmente, quase todos os cristãos brasileiros cresceram e foram educados para falar mal de outros cristãos. Às vezes, partindo da maneira de se comportar de um grupo ou até mesmo de um indivíduo, fazemos generalizações inadequadas, fomentando a intolerância.

A intolerância se manifesta em preconceitos do tipo "não sei, não vi, mas não gosto"; isto é, não conhecemos nem queremos conhecer outras comunidades, mas estamos aptos a emitir um conceito mal delas e aceitar qualquer observação negativa. Manifesta-se também no desejo de aprender ou defender a própria doutrina atacando os outros.

Ser ecumênico é ser profundamente tolerante e respeitoso para com a fé alheia. "O amor que temos à nossa Igreja e ao que ela ensina, deveria nos ajudar a perceber que o outro deve ter um amor semelhante por sua própria Igreja. Partindo do pressuposto de que ambos os grupos têm amor a Jesus, deveria ser possível tratar as divergências de forma serena e respeitosa" ("O que é ecumenismo?", pág. 26, Edições Loyola).

A Igreja Cristã do terceiro milênio deverá retornar ao texto bíblico e reaprender com seu Senhor a ter um espírito e uma prática tolerante, "pois quem não é contra vós outros, é por vós" (Lc 9.50).

3 - PRÉ-REQUISITO PARA ACEITAÇÃO DO EVANGELHO

A história da divisão dos cristãos está cheia de episódios lamentáveis, onde o pecado superabundou. Muita gente perdeu a vida e ainda perde por causa desta separação. A grande vítima, ainda hoje, é a evangelização.

A falta de unidade, sem dúvida alguma, prejudica o anúncio do Evangelho. Na oração do Senhor, encontramos esta preocupação: "... a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste" (Jo 17.21).

De fato, foi percebendo isso que nasceu, no meio das missões protestantes, o movimento ecumênico. É que elas verificavam que as pessoas que eram evangelizadas ficavam chocadas ao ver que o Jesus" de uma igreja não servia para a outra e que os cristãos que proclamavam o amor universal estavam completamente divididos entre si.

Por que é tão difícil realizar um sério trabalho de evangelização nos dias de hoje? Uma das respostas a esta indagação seria o divisionismo existente no meio cristão.

Robinson Cavalcanti, chama a atenção para o conteúdo da proclamação: "Crer, sim, mas em quê? É aí que entra a justificável preocupação dos evangélicos com a falta de consistência de algumas produções teológicas ecumênicas, de salvação claramente universalista, beirando o sincretismo.

Há um sagrado depósito a ser preservado, segundo o ensino apostólico e a compreensão histórica da Igreja. A falta de unidade é um pecado, a falsa doutrina também"(Ultimato - junho/89 - págs. 35 e 36).

Contudo, nem sabemos imaginar como seria a tarefa da proclamação do nome de Cristo se, de fato, tivéssemos uma unidade visível do Corpo dele aqui na terra. A oração de Jesus seria plenamente atendida: "para que o mundo creia que tu me enviaste"(Jo 17.21). 

4 - OPORTUNIDADE PARA DESENVOLVER A SOLIDARIEDADE

A prática do ecumenismo é extremamente relevante para desenvolver a solidariedade diante das angústias, flagelos e necessidades do mundo.

W. A. Visser’t Hooft, primeiro secretário do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), diz que, durante a Segunda Guerra Mundial, o movimento ecumênico fortaleceu-se sobremaneira: "foi a época em que a realidade da fraternidade cristã, que transcende todas as divisões, tornou-se mais evidente do que nunca. Foi uma fraternidade que encontra seu alimento na confissão comum de lealdade ao único Senhor em oposição aos senhores das novas e idólatras ideologias" ("Cristianismo e outras religiões", pág. 95, Paz e Terra).

Por ocasião da grande carência experimentada pelas Igrejas da Judéia, as igrejas da Macedônia se uniram, num autêntico ecumenismo, para manifestar a solidariedade deles em favor das comunidades da Judéia (II Co 8.1 -15).

Recentemente, boa parte das igrejas brasileiras se uniram em mutirão para arrecadar alimentos, roupas e remédios que foram enviados às vítimas da guerra civil em Angola e Moçambique.

Mesmo sabendo que o ecumenismo é oportunidade para desenvolver a solidariedade, ainda há muitas barreiras. Vai ser necessário um trabalho paciente e muita compreensão para vencer dificuldades que se foram acumulando ao longo dos séculos.

Quando haverá a plena comunhão na unidade? Só Deus sabe. Contudo, se não podemos terminar o milênio unidos, é necessário que, como Igreja, iniciemos esse novo milênio bem menos separados.
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