O Barro nas mãos do Oleiro



Como é possível Deus ter determinado o destino final das pessoas segundo a sua vontade, se são muitos os que entram pela porta larga? Ora, se a vontade expressa de Deus é que ninguém pereça e que muitos venham ao conhecimento da verdade, como conciliar a parábola dos dois caminhos com a idéia de que o destino final das pessoas é segundo a vontade de Deus?
Uma Lição na Casa do Oleiro
“A PALAVRA do SENHOR, que veio a Jeremias, dizendo: Levanta-te, e desce à casa do oleiro, e lá te farei ouvir as minhas palavras. E desci à casa do oleiro, e eis que ele estava fazendo a sua obra sobre as rodas, como o vaso, que ele fazia de barro, quebrou-se na mão do oleiro, tornou a fazer dele outro vaso, 

conforme o que pareceu bem aos olhos do oleiro fazer” ( Jr 18:1 -4).

Após escutar a voz de Deus, Jeremias desceu à casa do oleiro e passou a observar o oleiro trabalhando o barro.
O profeta observou que o oleiro em questão fazia a sua obra sobre as rodas. Perceba que o ato de trabalhar o barro até formar os vasos é uma obra específica do oleiro. Em determinado momento, o vaso que estava sendo moldado quebrou-se, e o oleiro tornou a fazer do vaso quebrado outro vaso. Tudo que foi realizado pelo oleiro era conforme o seu parecer.
De tudo que o profeta Jeremias observou podemos destacar o seguinte:
·         A matéria prima que o oleiro utiliza sobre as rodas é o barro;
·         O produto final da obra do oleiro é o vaso;
·         Quando um vaso, que esta sendo moldado, se quebra o oleiro pode utilizar a mesma massa, porém, o resultado final é outro vaso;
·         O oleiro tem autonomia para fazer o vaso segundo o seu parecer.
O Profeta Isaias complementa o exposto por Jeremias: "Ai daquele que contende com o seu Criador! O caco entre outros cacos de barro! Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes? Ou a tua obra: Não tens mãos?" ( Is 45:9 ).
·         Para os que contendem com o Criador não há salvação;
·         A obra soberana de Deus é formar vasos a partir do barro;
·         O caco de barro que contende com o Oleiro Eterno questiona as ações como se as mãos do Criador não pudessem salvar.
Após o profeta observar o oleiro exercendo o seu ofício, Deus falou com Jeremias:
“Então veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? Diz o SENHOR. Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel” 
( Jr 18:6 -7)
A palavra de Deus teve inicio com uma pergunta: “Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel?”. A pergunta é respondida com um sonoro ‘Sim’! Assim como o barro inerte depende do oleiro para tomar forma, o povo de Israel precisava descansar (confiar) nas mãos do Oleiro Eterno, que tem poder para fazer novamente todas as coisas.
Para os calvinistas a soberania de Deus se estabelece quando Deus salva ou condena o homem, porém, o que se depreende da palavra de Deus anunciada pelo profeta Jeremias é que a soberania de Deus é exercida na criação do homem.
O apóstolo Paulo ciente desta verdade escreveu aos cristãos em Roma e alertou aqueles que achavam que a palavra de Deus havia falhado para com o povo de Israel ( Rm 9:6 ).

Princípios
“Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 )
Para rebater os judeus contradizentes e enfatizar que a palavra de Deus não falhou ( Rm 9:6 ), o apóstolo Paulo ao escrever aos cristãos em Roma introduziu as mesmas figuras que Deus apresentou ao profeta Jeremias: o oleiro, o barro e o vaso.
É assente entre os cristãos que Deus é o oleiro, visto que, através de algumas referências bíblicas é possível aos leitores das Escrituras chegarem a esta conclusão "Mas agora, ó SENHOR, tu és nosso Pai; nós o barro e tu o nosso oleiro; e todos nós a obra das tuas mãos" ( Is 64:8 ).
Seguindo o exposto no versículo anterior é fácil concluir que os homens são ‘feitos’ a partir do barro. Não importa se salvos ou não, todos os homens são provenientes do ‘barro’, como é demonstrado no Gênesis ( Gn 2:7 ). Do mesmo modo que se conclui que todos os homens são vasos ‘confeccionados’ (formados) a partir do barro, conclui-se também que todos os homens (salvos e perdidos) são obras da mão de Deus “... da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ).
O apóstolo Paulo apresenta duas categoriais de vasos: vasos para honra e vasos para desonra. Daí surgem outras perguntas: Quem são os vasos para honra e os vasos para desonra? Quando são ‘modelados’? No que diferem os vasos para honra dos vasos para desonra?
Analisemos a argumentação paulina:
·         Deus é o oleiro – “... não tem o oleiro poder sobre o barro...?” – a figura do oleiro foi utilizada por vários escritores do Antigo Testamento e Paulo utilizou a mesma figura de modo singular, visto que é da alçada de quem exerce o ofício de oleiro modelar o barro segundo a sua livre vontade, decisão e agência;
·         Deus é Todo Poder – “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro...?” – é incontestável o poder criativo de Deus. Ele é todo poder (soberano) "Porque toda a casa é edificada por alguém, mas o que edificou todas as coisas é Deus" ( Hb 3:4 ). Soberanamente Deus cria (forma) os homens tendo por matéria prima o barro;
·         O Oleiro e o barro - Deus exerce o seu poder sobre o barro, ou seja, o poder do Oleiro Eterno é exercido especificamente sobre o barro, diferente da idéia difundida de que o poder de Deus ou a sua soberania é a imposição da sua vontade sobre alguns vasos. O ‘barro’ é a matéria prima onde o ‘oleiro’ exerce soberanamente o seu oficio.  O comparativo estabelecido por Paulo demonstra que Deus exerce o seu eterno poder criativo (soberania) sobre o barro (massa), para trazer a existência os homens (vasos) “... ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso...”. Este verso demonstra que Deus exerce poder quanto à criação dos homens (poder sobre o barro para fazer vasos), porém, como é próprio à sua santidade, Deus a ninguém oprime, ou seja, Ele não exerce o seu poder criativo com o fito de obrigar as suas criaturas (vasos) a submeterem-se ao seu senhorio. O oleiro não exerce o seu poder sobre os vasos, antes o seu poder é exercido sobre o barro, podendo fazê-los (criar) conforme o estabelecido pelo seu propósito eterno: vasos para honra e vasos para desonra.
·         O homem é feito do barro - “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro...?” – utilizaremos Isaias 64: 8 para compreender melhor a atuação de Deus sobre o barro. Em Is 64:5 , o profeta indaga sobre como é possível ao homem alcançar salvação; no verso 6 ele demonstra que todos os homens são comparados ao que é imundo; os atos de justiça dos homens são comparáveis a trapos de imundície; todos os homens estão sujeitos a morte (folha que cai) devido ao pecado (salário do pecado). Devido à condição da humanidade não há quem esteja vivo (acordado), que invoque a Deus e detenha a sua ira; Porém, mesmo diante deste quadro horrível, o profeta clama a Deus invocando-o como Pai, pois ele sabia que, para ser salvo é necessário a filiação divina, e este milagre só é operado por Deus quando o homem reconhece a sua condição de miséria herdada de Adão e descansa (fé) em Deus. A massa (barro) utilizada para fazer os vasos para honra e desonra é a mesma. Isaias profetizou neste texto, por figura, a idéia da doutrina do novo nascimento;
·         A massa utilizada é única – “... para da mesma massa...” - a matéria prima utilizada para moldar os vasos para honra e desonra é a mesma: o barro! Da mesma massa Deus faz vasos para honra e desonra. Como isto é possível? Os homens (vasos para desonra) são gerados através da semente corruptível de Adão (barro), e por serem gerados de novo através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus (evangelho), Deus usa a mesma ‘massa’ para fazer vasos para honra em Cristo.
Através da análise anterior foi possível determinar que:
·         Deus é o oleiro;
·         Os homens são vasos (para honra ou desonra);
·         Ambos os vasos são feitos de uma mesma massa: o barro;
·         Deus exerce o seu poder sobre o barro para fazer vasos (homens), diferente da idéia de que Deus exerce poder sobre os vasos; Obs.: o senhorio do pecado ou da obediência sobre os homens vincula-se respectivamente a Adão e Cristo, visto que, a quem o homem se oferecer por servo para obedecer, será servo de quem obedecer: ou do pecado ou da obediência ( Rm 6:16 );
·         Adão vendeu-se ao pecado, e com ele todos os seus descendentes (humanidade).

Honra
Resta determinar quem são os vasos para honra. Ora, o apóstolo Paulo demonstra que ‘nós’, ou seja, os cristãos (aqueles que são chamados através do evangelho dentre judeus e gentios) são os vasos de honra “... a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para a glória já dantes preparou, os quais somos nós...” ( Rm 9:23 -24).
“Vasos de misericórdia” é o mesmo que “vasos de honra”, de acordo com o que se depreende da argumentação paulina. Todos que crêem em Cristo, conforme diz as Escrituras, são vasos para honra, visto que, em Cristo todos são feitos participantes da natureza divina, contados como filhos de Deus.
Os vasos para honra são os cristãos. Todos os que creram foram de novo modelados (criados) segundo o evangelho que é poder de Deus ( Jo 1:12 -13; Rm 1:16 ). Deixam a condição de filhos da ira para serem vasos de misericórdia. Deixaram a condição de pecado proveniente da desobediência de Adão, e passaram a condição de filhos de Deus proveniente da obediência do último Adão (Cristo).

Desonra
Ora, se os vasos para honra são provenientes da obediência do último Adão, que é Cristo, segue-se que os vasos para desonra são provenientes da desobediência do primeiro Adão. Todos os homens sem Cristo são vasos para desonra, visto que são nascidos segundo a vontade do varão, da vontade da carne e do sangue, e por isso todos os homens nascem sob o senhorio (jugo) do pecado ( Jo 1:13 –13). Em Adão os vasos para desonra são ‘criados’.
Ora, o poder de Deus trás à existência tanto os ‘vasos’ para desonra quanto os ‘vasos para honra. O barro utilizado para fazer os vasos para a honra e desonra é o mesmo. Porém, não podemos esquecer que, primeiro são feitos os vasos para desonra, para depois vir à existência os vasos para honra ( 1Co 15:46 -48). Primeiro o homem natural, depois o espiritual.
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