Como discutir teologia sem parecer um débil mental: Falácias de Apelo



Segundo o dicionário Priberam, “apelar” significa invocar, chamar ou fazer uso de um recurso [1]. As falácias de apelo são argumentos que invocam para o debate questões que não estão relacionados com o argumento em si, usando como recurso fatores que são irrelevantes para o debate. Nesta postagem, observaremos seis apelos que, pelo meu ver, são os que mais se repetem dentre os debates teológicos.

i. Apelo à força
Um dos apelos muito usados no dia de hoje é aquele cujo objetivo principal é, através do uso de ameaças, retirar do argumentador a vontade de prosseguir defendendo sua opinião. É como a velha história de quando Galileu Galilei foi diante da igreja defender que o sol era o centro do universo. Ameaçado com a fogueira, preferiu perder o debate do que perder a vida.
Hoje em dia, muitos argumentam de modo parecido. Um primo meu acabou discordando de seu pastor em certo assunto e marcou uma reunião para conversar sobre aquele ponto doutrinário. Após expor sua opinião e não ser convencido pelos contra-argumentos de seu líder, o apelo foi muito claro: “Se você crê assim, não acho que você poderá continuar pregando em seu pequeno grupo”. Muitos pastores de igrejas confessionais, cujas doutrinas fundamentais estão expressas nos credos históricos, usam este tipo de argumento quando não convencem seus colegas de denominação: “se você discordar, não poderá continuar sendo pastor e perderá o sustento de sua família”.
Esse tipo de falácia não é só intelectualmente desonesta, mas cruel. Em meio a um debate, tentar desmerecer o argumento do outro levantando a questão do que o argumentador pode perder não lida em hipótese alguma com a veracidade ou falsidade do que o adversário está propondo. É como dizer: “ou muda de opinião ou eu te encho de pancada”! Em um debate intelectualmente honesto, precisamos ignorar as consequências do que está sendo defendido (pelo menos no momento em que as ideias estão sendo tratadas) para focarmos nossas capacidades em lidar única e puramente com as ideias que queremos combater.

ii. Apelo à emoção
Quando o missionário americano Paul Washer veio para o Brasil a fim de pregar na Conferência Fiel para Pastores e Líderes de 2012, tive o prazer de viajar para Águas de Lindóia e ser abençoado pelas preleções deste e outros irmãos de todo o Brasil e de fora dele. Ao voltar para minha terra, um amigo me enviou o vídeo do ex-pastor presbiteriano Caio Fábio. Era a filmagem de um programa onde, após exibir um vídeo do Washer sobre a Ira de Deus, ele gasta vários minutos perguntando repetidamente ao espectador, ao som de violoncelos: “você é filho do Deus que odeia?” [2], tentando gerar um desconforto naqueles que defendem que Deus odeia tanto o pecado quanto o pecador (ainda que haja um amor de Deus que é comum a todos os homens).
O mesmo tipo de apelo é visto no livro “O Amor Vence”, de Rob Bell. Tentando defender que, em algum momento, todos serão salvos (o que chamamos de universalismo), ele várias vezes comenta como o inferno é doloroso demais para ser verdade e pergunta: “que tipo de Deus seria esse?”. Seu argumento, no caso, é tentar fazer com que não nos sintamos bem diante da ideia de um Deus punitivo.
O que estes dois homens estão tentando fazer ao usar esse tipo de artifício é apelar à emoção do leitor, para que ele se sinta mal com relação às próprias crenças. Este não é um argumento racional, que tenta lidar com os pontos bíblicos da questão, mas apenas gerar um mal estar no argumentador. Devemos crer na verdade, não importa o quão ofensiva ela seja ou quão desconfortáveis ela faça com que nos sintamos.

iii. Apelo ao povo
Essa eu já ouvi demais, principalmente quando estamos defendendo uma posição que é pouco propagada em seu contexto social. Esse apelo pode ser caracterizado por aquela velha perguntinha: “É mais fácil só você estar errado e todo mundo certo, ou só você certo e todo mundo errado?” (o que, neste caso, acaba sendo um tipo de apelo à emoção, ver ponto ii).
Para que ninguém me acuse de só “atacar o inimigo”, permitam-me citar alguém que admiro. Charles Spurgeon, o famoso pregador batista, durante uma ótima defesa bíblica da doutrina da eleição incondicional (doutrina que defendo também), escorrega em um argumento inválido:
“Fosse eu um Pelagiano, ou um que acreditasse na doutrina do livre-arbítrio, e eu teria que andar por séculos totalmente só. Aqui ou acolá um herético de nenhum caráter poderia surgir e me chamar de irmão. Mas apoderando-me dessas coisas para serem meu padrão de fé, vejo as terras de anciãos com meus irmãos na fé – contemplando multidões que confessam o mesmo que eu, e reconhecem que esta é a religião da própria igreja de Deus.” [3]
Oras, em que isso dá mais validade ao argumento calvinista ou tira o crédito da doutrina pelagiana? O que aconteceria se houvessem avanços nos estudos de história e fosse, de algum modo, descoberto que os pelagianos foram maioria ao longo da história? Isso faria com que eles fossem uma crença mais viável de ser aceita? Acredito que nossas crenças em nada mudariam. Para falar a verdade, o cristianismo foi uma minoria por muitos anos e ainda o é em vários países do mundo. Uma vez que ”estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem” (Lc 13:24), por que estaremos preocupados com maiorias? Quer sejam muitos ou poucos os defensores de alguma opinião, isso não aumenta nem diminui sua possibilidade de ser verdade. O que define isto é sua fidelidade às Escrituras, e só.

iv. Apelo à autoridade
Certa vez, debatendo com alguns amigos sobre determinado tema relacionado à doutrina do Espírito Santo, entramos em um impasse quando à interpretação de certo texto. Foi então que um deles pegou um grosso comentário bíblico de João Calvino e leu sua interpretação da passagem, arrematando: “viu só?”. “Oras” disse eu, “mas eu não concordo com a interpretação dele”. Com olhos arregalados, meus colegas de debate perguntaram: “ele sabe mais teologia que você, quem você pensa que é para discordar dele? É muito orgulho de sua parte achar que entende mais de teologia que Calvino”.
Outro caso parecido aconteceu quando lancei o documentário sobre sucesso ministerial. Um rapaz discordou do que viu, alegando que toda boa igreja precisa crescer – e que as igrejas que permanecem pequenininhas por anos estão cometendo algum erro. Para embasar seu comentário, ele fez citações de grandes homens da história. Após minha contra-argumentação, ele respondeu: “são colocações de pastores renomados que tiveram sucesso”, como se isso fosse suficiente para tornar sua visão correta.
O erro deste tipo de argumentação é que até os maiores teólogos são passíveis de erro. Grandes teólogos possuem grandes argumentos, e devemos analisá-los em busca das luzes que eles lançam sobre os textos bíblicos. Porém, não devemos acreditar neles com uma fé cega, crendo que eles são seres especiais. Além do mais, o que faz com que alguma autoridade seja considerada assim por você é devido a sua análise dele. Assim, tentar argumentar que “quem é você para discordar de fulano?” deveria ser contra-argumentado com “quem é você para considerar fulano como alguém a ser ouvido?”.
Essa falácia também é observada quando lemos artigos ou comentários que se desgastam intensamente tentando lidar com a confessionalidade de certo assunto mais do que com sua biblicidade. Certa vez, li um texto de 15 página sobre Salmodia Exclusiva que gastava três páginas lidando com o assunto exegeticamente e 12 páginas discutindo se certa confissão de fé defendia ou não tal posição. Ainda que neguemos com os lábios que não cometemos este tipo de erro argumentativo, quando nossos textos, comentários, pregações e palestras são assim, temos atitudes diferentes daquilo que proferimos.

v. Apelo à novidade
Em alguns seminários, é muito comum ouvir que as interpretações modernas são sempre melhores. Devido à evolução da ciência teológica, podemos entender a Escritura melhor do que em qualquer outro tempo da história. Também, graças aos avanços nos estudos sociológicos e psicológicos, podemos observar o mundo com olhos que ninguém antes pode.
Em certo sentido, podemos concordar com essa interpretação. Seria tolice ignorar todos os avanços modernos na arte exegética, as novas observações hermenêuticas ou o aprofundamento linguístico que conquistamos sobre as línguas originais da Escritura. Contudo, algo ser moderno não é suficiente para que seja verdadeiro. Muitas vezes eu precisei ouvir pessoas acusando minhas crenças de serem antigas demais: “Poxa, Yago! Já estamos no século XXI e você ainda defendendo essa visão primitiva?” (o que também é um apelo à emoção, ver ponto ii). Existem muitas visões atuais que são melhores que as visões antigas,  é tolice negar isto. Porém, existem muitas visões modernas que são intragáveis. A idade de uma ideia não afeta sua veracidade: modernas ou não, doutrinas procedem da Escritura, e é sua fidelidade à Palavra que define se ela deve ser crida.

vi. Apelo à antiguidade
No entanto, há quem cometa um erro oposto ao anterior. Alguns, ao invés de apelarem à modernidade, apelam à antiguidade. Tentando me convencer de certo ponto, um amigo arrematou confiante: “Sabia que foi crido assim ao longo de toda a história da igreja?”. Creio que meu “e daí?” o deixou um pouco escandalizado. Citando novamente Spurgeon, e só o faço por que ele comete esse erro no mesmo sermão citado anteriormente, podemos ver como esse tipo de falácia é facilmente cometida:
“O que eu prego, então, não é novidade; nenhuma nova doutrina. Adoro proclamar essas fortes e antigas doutrinas, que são chamadas pelo nome de Calvinismo, mas aquelas que são realmente e seguramente a verdadeira revelação de Deus como ele é em Cristo Jesus. Por essa verdade eu faço uma peregrinação ao passado, e vejo, pai após pai, confessor após confessor, mártir após mártir, em pé para me cumprimentar.” [4]
Que eu não seja interpretado de modo confuso. Eu leio mais livros antigos do que novos. Creio que a história da igreja nos dá uma contribuição imprescindível para o pensar teológico e ignorar os grandes mestres do passado não é só tolice, é suicídio intelectual. Ler os antigos é uma das minhas primeiras recomendações a todo crente que deseja crescer em fé e piedade. No entanto, argumentar que algo é correto por ser antigo é tolice. Alguns já fizeram isto e foram confrontados com o fato de que várias doutrinas erradas e até heréticas foram defendidas por boa parte da chamada igreja visível. Como dito antes, nada é mais verdadeiro por ser velho – claro que a idade amadurece e refina, mas não torna nada mais verdadeiro.
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