Calvinismo Missional


por Wilson Porte Jr
Recentemente, meu amigo Renato Vargens escreveu um texto refletindo sobre uma afirmação muito comum entre os cristãos. A afirmação é:
Calvinista não evangeliza!
Será? Não evangeliza mesmo? Permita-me levantar algumas questões:
Quando começou o trabalho missionário no Brasil, você sabe?
Sabe quem enviou os primeiros missionários para cá?
Sabe quem enviou os primeiros missionários para as Américas?
Sabe quem foram os primeiros mártires evangélicos que morreram por causa de sua fé no Brasil?
Pois bem, este pequeno artigo visa responder essas perguntas além de mostrar que a grande maioria dos cristãos de hoje comentem um erro grave ao afirmarem que calvinistas não fazem missões.
Mapa do território chamado pelos índios de Guanabara e pelos portugueses de Rio e Janeiro
Mapa do território chamado pelos índios de Guanabara e pelos portugueses de Rio e Janeiro
No final de 1555, apenas 55 anos após o “descobrimento” do Brasil, chegaram os primeiros protestantes na América. E eles vieram para o Brasil, mais especificamente, para o Rio de Janeiro. Uma expedição de franceses, comandada por Nicolas Durand de Villegaignon (1510-1571), veio ao Brasil para fundar aquilo que chamaram de “França Antártica”. Essa foi uma tentativa francesa de estabelecer uma colônia no Brasil.
Logo após chegarem aqui, Villegaignon escreveu uma carta à Igreja Reformada em Genebra (e para seu pastor, João Calvino) pedindo que enviassem um grupo de evangélicos para o Brasil. Com isso, Villegaignon desejava elevar a moral e a vida espiritual na novel colônia francesa.
Em 1557, João Calvino e a Igreja Reformada de Genebra enviaram um grupo de evangélicos para viver pregar o Evangelho aos franceses que aqui já estavam e aos índios tupinambas que naquela região moravam.
O grupo de 14 pessoas deixou a cidade de Genebra no dia 16 de setembro de 1556. Todos participavam da Igreja Reformada de Genebra que tinha como seu pastor João Calvino. A estes 14 se unirem muitos outros que formaram uma frota com 3 navios, com quase 300 pessoas, que saíram do porto de Honfleur, na Normandia, no dia 19 de novembro de 1556.
Publicação original de Jean de Léry História de uma viagem à Terra do Brasil
Publicação original de Jean de Léry História de uma viagem à Terra do Brasil
Eles chegaram no Brasil em 7 de março de 1557. Os líderes da equipe de evangélicos foram os pastores Pierre Richier e Guillaume Chartier. Além deles, veio também Jean de Léry, um sapateiro que, mais tarde, estudaria no seminário de Genebra (conhecido como Academia de Genebra), aos pés de Calvino, e que escreveria o livro História de uma Viagem à Terra do Brasil (1578), no qual conta sobre esta viagem missionária que fizeram ao Brasil.
Portanto, o trabalho missionário no Brasil (e nas Américas) começou oficialmente no ano de 1557. João Calvino foi quem enviou os primeiros missionários. Todos os missionários enviados eram reformados (o que, futuramente, ficou conhecido como calvinistas). Alguns deles acabaram morrendo aqui, por causa de sua fé. Isso fez com que se tornassem os primeiros mártires cristãos nas Américas.
Além disso, é interessante ressaltar que foram estes missionários que celebraram o primeiro culto evangélico das Américas, e isso, em terras brasileiras! Foi no dia 10 de março de 1557. Neste culto, foi cantando o Salmo 5, hino do Saltério Huguenote, e pregado o Salmo 27.4. No dia 21 de março do mesmo ano, foi celebrada a primeira Ceia do Senhor no Brasil.
Todavia, por causa da pressão que os católicos romanos, sobretudo os jesuítas, fizeram sobre Villegaignon, estes missionários, além daqueles outros crentes que vieram na primeira viagem em 1555 com Villegaignon, tiveram que tomar um navio e voltar pra Europa. Isso tudo por causa da influência de Jean Cointac, ex-dominicano, sobre Villegaignon. O conflito girou em torno da ceia do senhor, do batismo, e de alguns pontos relacionados à salvação. Por causa disso, as pregações foram proibidas na colônia, a celebração da ceia e os cultos de oração banidos, até que, por fim, todos foram expulsos.
Ao saberem que um navio passava por ali com destino à França, todos os evangélicos decidiram embarcar e voltar para a Europa. Embarcaram no dia 4 de janeiro de 1558. Quando já estavam entrando em alto mar, o navio em que estavam ameaçou afundar. Isso fez com que cinco dos tripulantes pulassem no mar e voltassem nadando para a Baía de Guanabara. Ao chegarem lá, todos foram presos. Villegaignon os forçou a responderem algumas perguntas nas quais eles declaravam em que criam. Essa era uma armadilha. Através desse documento, os cinco seriam condenados por agirem de modo contrário à religião da colônia.
Em 1558, Jean du Bordel, Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon, André Lafon e Jacques le Balleur (os cinco calvinistas que voltaram à nado para o Brasil), foram condenados à morte e o belíssimo documento que escreveram em menos de 12 horas, ficou conhecido como a “Confissão de Fé da Guanabara”. Esta foi a primeira confissão de fé escrita nas Américas. E essa confissão acabou custando a vida daqueles que a escreveram.
Ao lerem o documento, as autoridades da colônia os considerou heréticos decidindo pela morte dos reformadores evangélicos. Os três primeiros a serem mortos foram Jean, Matthieu e Pierre, no dia 9 de fevereiro de 1558. Os três foram estrangulados e lançados ao mar.
Como o único alfaiate que havia naquela região da colônia era André Lafon, sua vida foi poupada.
Jacques le Balleur acabou conseguindo fugir para a cidade de São Vicente, no estado de São Paulo. Mas, acabou sendo preso no ano seguinte ao ser visto pregando suas convicções e foi levado para Salvador onde ficou preso durante oito anos, até 1567. Alguns historiadores afirmam que, neste ano, os Padres José de Anchieta e Manuel da Nóbrega convenceram o governador-geral do Brasil, Mem de Sá, a condenar à morte le Balleur por causa de heresias protestantes. Assim fazendo, Mem de Sá o enviou ao Rio de Janeiro para ser executado.
Segundo alguns historiadores, a execução de Jacques le Balleur teria sido por enforcamento, mas algo interessante aconteceu no ato da execução. Dizem esses registros históricos que, ao ser levado para execução, o carrasco responsável não conseguiu realizar a consumação da pena de morte. Alguns afirmam que o carrasco teria se recusado a executá-lo. Foi então que o Pe. José de Anchieta teria auxiliado o carrasco, estrangulando Jacques com suas próprias mãos. Alguns historiadores católicos e biógrafos de Anchieta, afirmam que a história talvez não tenha sido bem assim. Muitos afirmam que foi este fato que contribuiu para o retardamento da beatificação de José de Anchieta.
Estes, então, ficaram conhecidos como os mártires calvinistas do Brasil. Portanto, foi na França Antártica que o primeiro esforço missionário aconteceu para a criação de uma igreja evangélica na América Latina.
Nunca nos esqueçamos, portanto, que afirmar que o calvinismo ou os reformados não evangelizam é um erro grave. Não há base histórica muito menos documental para isso. Trata-se apenas de falácias criadas por quem não conhece a história.
Que houve um grupo com nome parecido, os hiper-calvinistas, que eram contrários a evangelização, isso houve. Mas, os calvinistas de verdade nada têm a ver com esse movimento quase herético conhecido como hiper-calvinismo, no qual somos todos como robôs ou marionetes nas mãos de alguém.
No hiper-calvinismo não há evangelismo nem missões.
O Calvinismo, desde seu início, foi regado com muita oração, evangelismo e esforço missionário. E a história dos 4 mártires calvinistas do Brasil são uma prova disso.
Jay Bauman
Jay Bauman
Ainda hoje, alguns grupos reformados estão na dianteira da evangelização no mundo. O ministério Atos 29, presido pelo pastor reformado Matt Chandler, é um exemplo disso. A Atos 29 está, inclusive, no Brasil (http://www.atos29brasil.com), plantando igrejas. Seu líder aqui no Brasil é o missionário Jay Bauman (@baumanjay), homem de Deus com coração missionário e excelente testemunho por parte de todos que lhe conhecem.
Que o exemplo destes primeiros missionários nos incentive a nunca deixarmos a obra missionária que ainda está incompleta no Brasil. Ainda há muito o que fazer, muito onde pregar, muito onde anunciar as grandezas de Deus e a mensagem do Evangelho. Que o esforço desses primeiros irmãos em terras brasileiras não tenha sido em vão. Que ele produza em nós paixão também, e dedicação completa para levar a mensagem de salvação a muitos que, ainda hoje, estão perdido.
Louvado seja Deus pela visão daqueles irmãos do século 16.
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