A Cultura do Engano


Estive no banco para pagar uma conta. Tentei usar o caixa eletrônico, mas sem sucesso. Como a maioria das minhas contas vence numa mesma data, o banco disse que a operação excedia o meu limite diário de movimentação. Fui até a gerente para resolver o problema.
A gerente me informou que, “para minha segurança”, o meu limite diário de transações era baixo. Mas que ela poderia aumentar o valor mediante minha solicitação. Informou-me ainda que, “para minha segurança”, boletos do próprio banco têm o triplo do valor de limite.

“Para minha segurança? Mas eu pago seguro anti-roubo todos os meses para o cartão.” – Retruquei.
Ela sorriu, como se soubesse que eu não engoliria aquela desculpa, e disse:
“É… na verdade, se houvesse alguma fraude, com ou sem seguro do cartão, o prejuízo seria do banco.”
Limitei-me a comentar:
“Acreditarei que alguma medida do banco é ‘para minha segurança’ no dia em que o banco me oferecer serviço de escolta até a minha casa todas as vezes que eu fizer um saque superior a quinhentos reais. Aí sim, poderão dizer que algo foi feito para minha segurança.”
Provavelmente o leitor achará graça da resposta que dei à gerente do banco. Mas, não deveria. Peço licença para explicar a razão.
Fato é que nos acostumamos com a mentira. A mentira hoje, na sociedade, encontrou espaço e fez sua morada. Utilizando-se de rótulos, como não poderia deixar de ser, mentirosos.
“É marketing do banco.” – Alguns me diriam.
“Isso é merchandizing.” – Afirmariam outros.
Mas o nome verdadeiro para tais táticas é: Mentira.
Para fazer com que a realidade desagradável se torne mais palatável, menos indigesta, usa-se de artifícios de linguagem para enganar, sem que a vítima do engano se dê conta de que está sendo iludida.
É terrivelmente assustador que isso seja tão corriqueiro que já nos tornamos anestesiados, e até mesmo indiferentes, à mentira. Já esperamos, quando compramos qualquer coisa, que uma boa dose do que nos é apresentado sejam inverdades, ou meias-verdades, açucaradas e douradas de modo a nos enganar.
É irônico como não saímos das lojas, nem desligamos as TVs na hora dos comerciais, e marchamos em peso para as delegacias de polícia para denunciarmos tais coisas. Sequer nos revoltamos, pois já estamos habituados a isso.
E pior: de tanto sermos expostos a isso, se não tomarmos muito cuidado, acabamos fazendo exatamente o mesmo.
A Torah nos diz:
“Não amaldiçoarás ao surdo, nem porás tropeço diante do cego; mas temerás o teu Elohim. Eu sou YHWH.” (Vayicrá/Levítico 19:14)
O sentido do trecho acima, na linguagem semita, é o de que não devemos tirar vantagem de um terceiro nos valendo de uma incapacidade ou desconhecimento dele.
“Eu não tenho obrigação de ensinar ninguém. Se ele não vê, é problema dele. Não estou mentindo.” – Bradam alguns, enfurecidos.
Se você segue a Torah, tem obrigação sim. Uma omissão, ou uma verdade dourada, a fim de que o outro não perceba algum detalhe, pode não ser tecnicamente uma mentira. Mas não deixa de ser uma transgressão. É apenas uma transgressão diferente.
Fato é que a cultura do “marketing” e do “merchan”, que não necessariamente tem a ver com o sentido original de tais palavras, é apenas uma fina cobertura de chocolate ao leite sobre uma intenção de enganar o outro, seja para se dar bem, ou para não se dar mal.
“Mas então terei que dizer toda a verdade para o cliente? Como irei viver?” – Indagam outros, perplexos.
Sim! E como viver? Confiando no Eterno! A Torah é radical, e somente uma mudança radical de cultura pode fazer frente a essa sociedade que adoece sob o peso do engano.
Seguir a Torah é ser estranho. É dizer para aquele seu amigo que irá comprar seu carro que existe um vazamento de óleo. É não dizer para o seu chefe que você passou oito horas trabalhando, se você na realidade passou seis horas no Facebook. É não dizer para uma moça que você irá ligar no dia seguinte, se não estiver interessado em dar sequência ao relacionamento. É assumir-se verdadeiro, diante do Elohim da verdade, mesmo que para isso precisemos passar por desconfortos.
Isso significa que devemos abrir toda a nossa intimidade a todo mundo? Dizermos mesmo aquilo que não convém dizer?
É claro que não se trata disso. O melhor medidor para sabermos se estamos vivendo a cultura do engano é a própria Torah. Uma simples pergunta pode responder a essa dúvida: Meu silêncio, ou minhas palavras adocicadas, podem fazer com que o outro se prejudique?
Se a resposta for afirmativa, estamos não apenas contribuindo para a cultura do engano, como também transgredindo a mitsvah (mandamento) de não nos valermos da inabilidade ou da ignorância alheia.
David, certa vez ao orar, disse:
“Porque somos estrangeiros diante de ti, e peregrinos como todos os nossos pais; como a sombra são os nossos dias sobre a terra, e sem ti não há esperança.” (Divrei haYamim Alef/1 Crônicas 29:15)
O povo não era peregrino quanto à terra, quando David disse isso. Porém, ser um israelita é termos consciência de que somos apenas peregrinos nesta terra.
Não é de se estranhar, portanto, que nossos costumes, nossa moral, e nossa prática sejam muito diferentes daqueles que nos cercam.
Não podemos nos deixar influenciar pelos sintomas da sociedade. Antes, devemos dar o exemplo, para contribuir com a cura.
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