Apesar da Fornalha



“Se formos atirados na fornalha em chamas, Elaha a quem prestamos culto pode livrar-nos, e ele nos livrará das tuas mãos, ó rei. Mas, se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos teus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer.” (Dani’el 3:17-18)

As frases acima estão entre as mais surpreendentes de todas as Escrituras. Shadrach, Meishach e Aved-Nego se recusaram a se curvar perante a estátua de ouro de Nabucodonosor. Por esta razão, foram sentenciados à fornalha ardente.

O que surpreende na fala dos três rapazes é o fato de que eles não condicionam sua confiança no Eterno ao livramento da fornalha ardente. Eles expressam confiança no livramento, mas, ao mesmo tempo, afirmam que não prestarão culto mesmo que o Eterno não os livrasse de fim tão terrível.

Esse episódio me recordou um diálogo ocorrido num fórum de debates judaicos uns tempos atrás. Nela, discutia-se sobre a questão da ressurreição. Mas, antes de falar disso, preciso aqui dar uma breve introdução para o benefício daqueles que são novos à fé judaica e à Torah (Instrução).

Justamente por focar no aqui e agora, o Tanach (a chamada Bíblia Hebraica) é talvez o livro religioso que menos fale da vida após a morte dentre todos os escritos da humanidade. O que, aliás, é bem mais honesto, uma vez que de fato pouco sabemos sobre tal assunto.

Um artigo na Jewish Virtual Library afirma o seguinte:


“Olam haBa (vida após a morte) é raramente discutido na vida judaica, seja entre judeus reformistas, conservadores ou ortodoxos. Isso é um contraste marcante para com tradições religiosas dentre as quais os judeus têm vivido. A vida após a morte sempre têm papel fundamental nos ensinamentos islâmicos, por exemplo. Até hoje, terroristas muçulmanos que são enviados em missões suicidas são relembrados de que qualquer pessoa que morra numa jihad (guerra santa) imediatamente sobe ao mais alto lugar no céu. No Cristianismo, a vida após a morte tem um papel crucial; os esforços missionários vigorosos de muitas seitas Protestantes estão enraizados na crença de que converter descrentes irá salvá-los do inferno.” (Afterlife)

As referências, como por exemplo a narrativa do Eden, a aparição de Sh’muel (Samuel) a Sha’ul (Saul), ou o salmista falando sobre a esperança no acordar enquanto as nações depositam suas esperanças em coisas mundanas, ou mesmo a tão breve menção em Dani’el, são bastante breves e enigmáticas.

Tal brevidade e pouco detalhamento deram origem a diversos pensamentos no meio judaico sobre a vida após a morte. Seja reencarnação, ressurreição, universo paralelo, existência incorpórea, algum tipo de união com o próprio Eterno, enfim, um sem-número de possibilidades, cada qual derivando seu entendimento através de um preenchimento lógico das peças que foram deixadas fora do quebra-cabeças apresentado pelo Tanach.

A Enciclopédia Judaism 101, por exemplo, afirma o seguinte:


“O Judaísmo Tradicional acredita firmemente que a morte não é o fim da existência humana. Contudo, porque o Judaísmo está principalmente focado na vida aqui e agora ao invés de na vida após a morte, o Judaísmo não tem muitos dogmas sobre a vida após a morte, e deixa um grande espaço para a opinião pessoal. É possível que um judeu ortodoxo creia que as almas dos justos irão para um lugar semelhante ao céu cristão, ou que se reencarnam através de muitas vidas, ou que simplesmente esperam a vinda do Messias, quando serão ressuscitadas. Semelhantemente, judeus ortodoxos podem crer que as almas dos ímpios são atormentadas por demônios que eles próprios criam, ou que as almas iníquas simplesmente são destruídas na morte, deixando de existir.” (Olam Ha-Ba: The Afterlife)

Quero esclarecer ao leitor que o objetivo aqui não é julgar procedentes ou improcedentes as visões acima descritas. Na realidade, como judeu, pouco me importa o que alguém crê quanto à vida após a morte, e sim como a pessoa vive a sua vida aqui na terra, nesta vida. Porém, a introdução acima se faz necessária para chegarmos no ponto abaixo indicado.

Voltando à discussão que vi alguns dias atrás, e que me lembrou o episódio dos três rapazes lançados na fornalha. Nesse fórum judaico, um rapaz cristão não conseguia compreender como o Tanach (a Bíblia Hebraica) dá margem para diferentes interpretações sobre o tema.

Ele ficou chocado ao saber que alguns não criam na ressurreição, confundindo isso com uma descrença numa existência após a morte. Essa confusão o deixou em desespero, e nesse desespero ele acabou revelando um pensamento que é muito comum. Ele discutia com dois judeus, um escrituralista, e outro rabínico.

O cristão afirmou:

“Quanto à ressurreição, se não há ressurreição, por que viver uma vida dedicada a YHWH se, quando morrermos, esse é o fim do assunto. Certamente, viver como um pagão seria mais divertido, e ainda mais lucrativo. Por que não jogar a Torah fora e cair na cama com tantas concubinas quanto os árabes muçulmanos nos deixariam?”

Ao que o judeu rabínico respondeu:

“Então você não faz nada exceto por esperança de gratificação. Ocorre apenas que você sabe como adiar a gratificação… Você age na esperança de uma recompensa e não por princípio e obediência ao Eterno… Se você não vê nada errado com ‘cair na cama com tantas concubinas quanto te forem deixadas’, então a tua religião não te ensinou nada sobre decência.”

O judeu escrituralista, por sua vez, teceu o seguinte comentário:

“Viver como YHWH requer de nós pode ser a recompensa em si, pelo menos para o sentimento de alguém. Acho a noção de que não há dignidade em seguir os mandamentos de YHWH a não ser que tenhamos certeza de que nos beneficiaremos de algum tipo de Ressurreição agudamente contrária à Torah.”

As respostas, tanto do judeu rabínico quanto do escrituralista, são interessantíssimas, porque revelam não apenas a mentalidade semita, como também o caráter de como deve ser a nossa abordagem para com a Torah (Instrução) e, consequentemente, o nosso relacionamento com o Eterno. E lembram muito a passagem de Shadrach, Meishach e Aved-Nego.

Pessoas que optam por viverem uma vida pecaminosa estão esperando uma gratificação imediata. Colocam o seu bem-estar e o seu prazer acima do bem e do mal, ou da integridade pessoal. Tais pessoas são governadas pelo princípio da própria gratificação. Creio que isso seja bem claro.

Porém, o que talvez nem sempre seja claro é o fato de que pessoas que optam por viver a Torah (Instrução) podem, sem perceber, estar vivendo pelo mesmo princípio. É verdade que o Tanach (a Bíblia Hebraica) afirma qualidade de vida para aqueles que vivem em sujeição à Torah (Instrução). E é verdade que, por mais enigmáticas que sejam as passagens, o Tanach também indica uma recompensa vindoura, seja ela qual for, e como for.

Todavia, esse não deve ser o motivo que nos leva a viver a Torah (Instrução). Infelizmente, pessoas cuja fé é movida por gratificação nem sempre conseguem compreender isso. Se uma pessoa se move por esses motivos, ela se torna extremamente frágil em sua prática de fé, pois se em dado momento a gratificação momentânea exceder à vindoura, ela será tentada a deixar a prática.

Uma pessoa que evoluiu na teshuvá (retorno) para uma prática da Torah (Instrução) deve também buscar evoluir nas suas motivações. Como disseram, acertadamente, os dois judeus acima indicados, devemos viver a Torah simplesmente porque YHWH assim deseja de nós, e esse deve ser motivo suficiente, independentemente de qualquer tipo de gratificação, seja atual ou vindoura.

Essa é, a meu ver, a principal lição de Shadrach, Meishach e Aved-Nego. Eles estavam dispostos até a ir às últimas consequências para não se dobrarem aos deuses babilônios. Mesmo confiando no livramento de Elohim, eles não condicionaram uma coisa à outra. Mesmo que Elohim permitisse que eles morressem, eles não dobrariam os joelhos a outros.

Essa é a verdadeira fidelidade que Urlim espera de nós.      
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