Do Erro à Sabedoria




Desejo falar hoje sobre um dos aspectos mais belos do relacionamento com o Eterno segundo o Tanach, mas que causa certa estranheza para muitos que não o compreendem.

Para isso, é importante ter em mente que as pessoas tendem a pensar da forma como foram criadas, e segundo os preceitos de sua educação religiosa, mesmo quando deixam essas práticas e abraçam outra fé.

E, infelizmente, vivemos numa cultura onde muita gente está habituada ao culto do medo e do terror. E, dentre esses medos, figura o medo de estar errado em suas conclusões ou interpretações acerca de suas religiões. Claro, para muitas delas, um passo em falso, e se cai em ‘apostasia’, o que as condena para o inferno eterno.

Mesmo quando se voltam para o Tanach, onde não há inferno e muito menos ainda tortura eterna, o medo continua a agir, mesmo que às vezes de forma inconsciente. E ele se manifesta na angústia que as pessoas têm de não terem toda verdade, ou de ainda não terem compreendido certos preceitos da Torah, ou ainda terem dificuldade em aplicá-los.

A verdade é que o Tanach é muito diferente disso. Como já disse algumas vezes, o princípio da maravilhosa diferença está no fato do Eterno ter escolhido os mais improváveis: homens altamente inconstantes, pecadores, e ainda chamar de Seu um pequenino povo de dura cerviz. Até a Torah, a mais gloriosa revelação jamais entregue à humanidade, teve como veículo um homem que era gago, ou tinha algum outro tipo de problema na fala. Improvável dos improváveis.

Dentro disso, está o fato de que o Eterno sabe que o nosso entendimento é gradual. O Eterno sabe que o caminhar na Torah é um processo de aprendizado gradual. E Ele sabe que ao longo de nossas vidas, iremos mudar de opinião, de visão de mundo, e consequentemente iremos absorvendo aos poucos mais e mais da Torah.

Um dos exemplos mais belos que vejo sobre isso é relatado por Kirkisani sobre Daniel Al-Kumisi. Kumisi, um exegeta caraíta que viveu em Jerusalém no século X, é talvez um dos mais brilhantes comentaristas peshatistas de todos os tempos.

Contudo, observe o que é dito sobre ele, nas palavras de Kirkisani:


“Não conheço ninguém dentre os que se devotam ao uso da pura razão mais consciencioso do que Daniel Al-Kumisi, ou mais disposto a dar a isso a medida certa. Toda conclusão que se chega pelo uso da razão ou obtida através de pesquisa ou demandada por prova lógica ele prontamente aceitava. Além disso, ele escrevia aos seus seguidores que tinham feito cópias de suas obras, informando-os de qualquer mudança que tivesse ocorrido em suas opiniões, conforme registradas em seus escritos, solicitando a eles que fizessem correções nas cópias de suas obras… Ele era forte nas Escrituras e no conhecimento da lingua hebraica.” (Kirkisani, Livro da Luz e das Vigias)

Pense na cena, por um momento. Um homem que viveu por toda a vida numa comunidade judaica. Que conhecia profundamente as Escrituras e o hebraico. Um homem que talvez tenha sido um dos responsáveis por fundar uma das sinagogas mais antigas de Yerushalayim (Jerusalém). Um dos primeiros e mais proeminentes sionistas da Idade Média. E um brilhante exegeta peshatista.

E, mesmo com esse currículo brilhante e invejável, Kumisi por diversas vezes em sua vida reconheceu estar errado em suas conclusões.

Muita gente reage a esse tipo de coisa até mesmo com uma certa violência argumentativa. É fácil perceber quando alguém se sente atingido e inseguro de suas conclusões, pois tal pessoa rapidamente apela para ataques pessoais, ironias, deboches, desqualificações, ameaças espirituais, entre outras.

Mas Kumisi, esse homem que tinha tudo para ser cheio de si, sabia que a Torah era um processo. E tinha a capacidade de reconhecer a verdade e aceitá-la quando a visse diante de si. E, não contente com isso, ainda fazia questão de informar aos seus seguidores que ele havia errado, e buscar corrigir suas observações. Como David, isso revela que ele tinha um coração voltado para os caminhos do Eterno.

Quando lemos as palavras de Mishlei (Provérbios), encontramos algumas coisas muito importantes sobre a trajetória do sábio. Observe:

“Não repreendas o zombador porque te odiará, repreende o sábio, e ele te agradecerá. Dá ao sábio, e ele se tornará mais sábio, ensina o justo, e ele aprenderá ainda mais. O começo da sabedoria é o temor de YHWH, e o conhecimento do Santo é inteligência.” (Mishlei/Provérbios 9:8-10)

Muitos citam a última parte deste trecho de Mishlei (Provérbios), ignorando o contexto. O contexto nos diz que um sábio, confrontado com o seu erro, aprenderá ainda mais.

Outra passagem semelhante é:

“Ouve o conselho, aceita a disciplina, para chegares a ser sábio depois.” (Mishlei/Provérbios 19:20)

Tais passagens nos ensinam três coisas fundamentais. A primeira é que o Eterno nos criou assim: seres que evoluem o pensamento gradativamente, e com esforço.

Pelo que infere Mishlei (Provérbios), os únicos que têm segurança de estarem na verdade absoluta quanto ao seu entendimento das Escrituras são, ironicamente, os tolos. O sábio entende que ele nada é. Se tivéssemos sido criados de forma a adquirir rapidamente todo o conhecimento perfeito sobre os caminhos do Eterno, o que nos impediria de cairmos vítimas de nossa própria arrogância?

O segundo ponto é que, na base dessa capacidade de se renovar perante a Torah, como fazia Kumisi, está o temor ao Eterno.

O sábio não é aquele que precisa estar plenamente correto sobre todas as suas interpretações de forma absoluta. Um homem sábio tem limitações, e as reconhece, pois ele não é o Eterno. Ele não precisa ter todas as respostas, ou ter o compromisso de ter opiniões monolíticas.

Não! A busca dele por se aperfeiçoar na verdade e no conhecimento estão no fato de que ele deseja cada vez mais honrar ao Eterno. O princípio da sabedoria está no coração. Se o coração está voltado para servir ao Eterno, e não para o temor do destino final, então aí poderemos começar a construir a sabedoria.

Isso nos leva ao terceiro ponto: A sabedoria não é construída da noite para o dia. Provavelmente, no início de sua caminhada na Torah, você irá cometer erros. Provavelmente, algumas de suas conclusões sobre como praticar a Torah irão evoluir ao longo do tempo. Provavelmente, conceitos teológicos sobre coisas de menor importância (anjos, vida após a morte, etc.) também passaram por fases de depuração.

E, mais importante de tudo: Provavelmente, Israel ainda tem muito o que aprender sobre a observância da Torah, antes de estar no ponto ideal que o Eterno deseja para nós.

Isso não deve nos desanimar, pois é parte do processo. Só não erra na observância da Torah quem não cumpre a Torah. Só não tira conclusões erradas sobre um texto das Escrituras quem não se dedica a estudar as Escrituras. Não tenha medo. Plante dedicação às Escrituras, para colher sabedoria, gradativamente.

Kumisi sabia disso. E talvez tenha sido justamente essa aceitação de sua própria humanidade que o tenha tornado um dos autores judeus mais brilhantes da Idade Média.
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