Entre a Dor e o Medo



“Livra-me, peço-te, da mão de meu irmão, da mão de Essaw; porque eu o temo; porventura não venha, e me fira, e a mãe com os filhos.” (Bereshit/Gênesis 32:11)
“Então Essaw correu-lhe ao encontro, e abraçou-o, e lançou-se sobre o seu pescoço, e beijou-o; e choraram.” (Bereshit/Gênesis 33:4)

A parashah desta semana relata o reencontro dos irmãos Ya’aqov e Essaw (Jacó e Esaú).

Muito é dito sobre o encontro, mas será que paramos para pensar como Ya’aqov devia estar se sentindo? O peso da divisão entre a saudade de sua família e o temor de seu irmão.

O choro que observamos, de ambos, já no verso 33:4 indica que ambos sentiam a falta um do outro. Para Ya’aqov (Jacó), essa angústia ainda era maior, visto que precisou deixar sua família em função de sua rivalidade com o próprio Essaw (Esaú).

Ya’aqov (Jacó) estava absolutamente dividido: Por um lado, o desejo intenso de estar próximo à sua família, de se reencontrar com as pessoas que amava, e de quem já estava distante havia pelo menos vinte anos.

Por outro, Ya’aqov (Jacó) temia o perigo do reencontro com seu irmão, cujo ódio poderia vir a destruí-lo, e ainda a aniquilar sua família.

Observamos que Ya’aqov (Jacó) não ocultou seu medo. Pelo contrário, ele o compartilhou com seus familiares, e servos, e buscou tomar medidas para minimizar os riscos.

Mas, por outro lado, Ya’aqov (Jacó) confiou no Eterno e em sua promessa de sustento, tanto para si quanto para sua semente, e foi adiante no encontro com Essaw (Esaú). Vinte anos já haviam se passado. Vinte anos de dor e solidão, devido ao afastamento de sua família, e de seu próprio irmão.

Ya’aqov (Jacó) poderia ter se resignado com a situação, e buscado outras terras bem distantes de Essaw (Esaú), afinal, era mais fácil encarar a dor que ele já estava acostumado a sentir, do que encarar o medo do enfrentamento.

No entanto, quando Ya’aqov (Jacó) reuniu forças para enfrentar seu medo, e fazer aquilo que o Eterno tinha colocado adiante dele, o Eterno transformou uma situação terrível em um dos momentos mais maravilhosos de sua vida.

O reencontro, o choro nos braços do irmão, a reconciliação após vinte anos de afastamento.

Se Ya’aqov (Jacó) tivesse se deixado levar pelo medo de mudar, e tivesse permanecido naquela situação já conhecida, provavelmente Ya’aqov (Jacó) não teria tido problemas com Essaw (Esaú), mas também não teria tido a chance de descobrir que estava fugindo do fantasma de algo passado, que já não existia mais.

Ya’aqov (Jacó) poderia ter se escondido atrás do pretexto de que ele teria que aguentar as consequências de suas escolhas. Muitas vezes, a aparência de força daquele que “carrega” o peso de suas decisões é apenas uma fachada, que na realidade oculta um medo intenso de mudar, de arriscar viver de forma diferente.

Se olharmos para as situações mais dolorosas que temos que encarar em nossas vidas, frequentemente descobrimos que elas ocorrem por nosso medo de mudar.

Parte do viver em aliança com o Eterno é termos a convicção de que se estamos buscando a vontade dEle, e viver segundo os preceitos da Sua Torah, Ele estará sempre conosco, e guiará nos nossos passos.

Não precisamos, então, temer a mudança, temer encarar um confronto que se faça necessário, ou mesmo temer revermos uma escolha de vida.

Mas, como no caso de Ya’aqov (Jacó), ter coragem para agir não significa não sentir medo. Significa, às vezes, reconhecer o medo, mas agir apesar dele, confiando que o Eterno irá nos sustentar.

Você pode fazer algo diferente na sua vida hoje. Você pode escolher entre dar ouvidos aos medos antigos, ou confiar no Eterno, e na Sua proteção.

Encerro esta pequena reflexão com um trecho dos salmos:
“Elohim é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia. Portanto não temeremos, ainda que a terra se mude, e ainda que os montes se transportem para o meio dos mares.” (Tehilim/Salmos 46:2-3)

Shalom a todos
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