Judaísmo e Ciência



“Evolução é a maior mentira de Satanás. Não confiem nos livros de ciência! Engenharia genética é um plano maligno para dar um corpo aos demônios!”

Infelizmente, as frases acima não são incomuns em alguns lugares, tais como no chamado Bible Belt Norte-Americano, em comunidades Amish, ou mesmo no Mea Shearim e outros lugares onde o fanatismo religioso ganha eco.

É claro que os exemplos acima são extremados. Mas, lamentavelmente, muita gente ainda traz consigo arraigados conceitos como os acima indicados. Sentem-se intimidadas, em sua fé, pela ciência e suas descobertas. Não deveriam.

No cerne desse debate, está a questão da Criação, assim como daquilo que o Tanakh (a Bíblia) hebraica revela sobre nosso planeta, ou mesmo sobre o cosmos.

Fato é que, na realidade, o Judaísmo historicamente sempre teve uma visão muito mais centrada e moderada das Escrituras do que o Cristianismo, pura e simplesmente por uma melhor compreensão da literatura e da visão de mundo semitas. As razões são óbvias.

Há uma antiga piada que diz que indagaram a um rabino se ele acreditava em extra-terrestres. Depois de refletir e coçar a barba por alguns minutos, ele afirmou: Eu não sei se existem, mas se existirem, foi o Eterno quem os criou!

A piada ilustra muito bem o propósito do relato da Criação. Não era ensinar Física ou Cosmogênese, e sim esclarecer em uma linguagem poética universal – acessível tanto a pessoas há 3 mil anos atrás quanto de hoje em dia – que o mundo teve origem no Criador de todas as coisas, pelo Seu poder, pelo Seu desígnio e para o Seu propósito.

Não à toa, o relato de Bereshit usa uma linguagem bastante poética, repleta de duplo-sentido, e conceitos enigmáticos. A terra estando caótica e desolada (tohu wavohu – תֹהוּ וָבֹהוּ); a serpente sendo astuta (‘arum – עָרוּם) e o casal que estava nu (‘erumim – עֵירֻמִּם), e assim por diante.

Fato é que todo o texto da criação segue até mesmo o estilo literário da poesia semita. Ao passo de Rambam, Maimônides, afirmar em seu famoso livro “O Guia dos Perplexos”:


“Primeiramente, a narrativa dada nas Escrituras da Criação não objetiva, como geralmente se acredita, ser literal em todas as suas partes. Pois se fosse esse o caso, sábios não teriam mantido sua explicação em segredo, e nossos Sábios não teriam aplicado linguagem figurativa [ao tratar da Criação] para ocultar seu verdadeiro sentido, nem objetado discuti-las na presença de pessoas comuns. O entendimento literal das palavras nos conduziria a ideias corruptas e formaria falsas opiniões sobre o Eterno, ou mesmo até mesmo a abandonarmos e rejeitarmos os princípios da nossa Fé. É portanto correto abster-se e retrair-se de examinar este assunto superficialmente e de forma não-científica. Devemos culpar a prática de alguns pregadores e expositores ignorantes da Bíblia, que acreditam que a sabedoria está na explicação das palavras, ou que a grande perfeição é atingida empregando mais palavras e um discurso mais longo. É, contudo, apropriado que examinemos os textos das Escrituras pelo intelecto, depois de termos adquirido um conhecimento de ciência demonstrativa, e do sentido oculto das profecias.” (O Guia dos Perplexos, Capítulo XXIX)

Como diz Rambam, o texto bíblico contém metáforas, linguagem poética, e isso deve ser compreendido para que a verdadeira mensagem não seja corrompida.

Com o perdão daqueles que acreditam que haja, literalmente, uma espada de fogo que anda sozinha pelo Eden, entender um texto no seu Peshat, isto é, no sentido simples, não é lateralizar um texto, e sim entendê-lo dentro do contexto em que foi escrito. E ignorar toda a estrutura poética do relato da criação não é, na opinião deste autor, lê-la de maneira Peshat.

Mas, claro, há quem discorde. Como diz o antigo provérbio escrituralista: Sonde as Escrituras, e não dependa da opinião de ninguém. O que inclui a opinião deste autor que aqui vos escreve. Discordar é salutar. Mesmo um criacionista estrito, não-evolucionista, pode ter uma postura saudável, caso não seja dogmático ao ponto de confundir a sua visão pessoal com o que efetivamente dizem as Escrituras.

O perigo do fundamentalismo está no fato de que as pessoas elevam a sua interpretação das Escrituras ao status do texto sagrado, confundindo uma rejeição a uma teoria ou doutrina com uma rejeição às próprias Escrituras. E, infelizmente, isso é muito comum dentre aqueles que chegam ao Judaísmo a partir de religiões fundamentalistas.

Aliás, o autor desta reflexão é da opinião de que, mesmo no meio de segmentos do povo judeu, esse fundamentalismo tenha surgido a partir do contato com tais religiões, e não seja algo originalmente judaico.

Vale ressaltar que mesmo na Idade Média, os judeus sempre estiveram muito à frente dos cristãos e dos muçulmanos acerca da busca pelo conhecimento científico, justamente encorajados pelo Tanakh, que elogia a busca pela sabedoria.

Dentre esses, vale destacar o Sefer Elim, uma correspondência entre o rabino italiano Joseph Solomon Delmedigo com um proeminente judeu de linha caraíta da Criméia, Zerach Ben Natan.


Nessa obra, os dois discutem temas que incluem matemática, física, astronomia, medicina e música. Ao lado, um facsímile do Sefer Elim.

Nela, o rabino Delmedigo escreve a seu professor, um certo Galileu Galilei, que o Hakham (Sábio) judeu caraíta Eliyahu Bashyatsi era um excelente astrônomo. Galileu Galilei, um dos pais da ciência moderna, e que anos depois seria interrogado pela Inquisição.

Inquisição essa que hoje trocou a forca pela caneta, a tortura pelos insultos, e as ameaças físicas pelas espirituais. Mas que continua condenando aqueles que não se alinham a uma determinada doutrina humana, tida como verdade absoluta.

Até hoje, Hakham Bashyatsi, autor de Aderet Eliyahu, é considerado um dos exegetas escrituralistas mais importantes de toda história. Sua obra sendo o equivalente caraíta da Mishnê Torah de Rambam.

E por falar novamente em Rambam, a Jewish Virtual Library traz outra pérola do Guia dos Perplexos:


“…Maimônides, um dos grandes rabinos da Idade Média, escreveu que se a ciência e a Torah estivessem desalinhados, ou era porque a ciência não tinha sido entendida ou porque a Torah estava sendo mal interpretada. Maimônides argumentou que se a ciência provasse um ponto, então aquele achado deveria ser aceito e as Escrituras deveriam ser interpretadas de acordo com isso.” (Judaism and Evolution)

Embora o autor deste texto seja um escrituralista, concorda plenamente com a visão de Maimônides. Além de ser racionalmente coerente, essa visão também põe em cheque a arrogância que existe em supormos que já compreendemos tudo o que deveríamos compreender sobre as Escrituras, e minimiza o risco de confundirmos a nossa opinião pessoal com o que de fato o texto diz.

Isso não significa que a ciência seja perfeita. Pelo contrário, a ciência é vibrante. Está sempre se desprovando, se reinventando, e se aprimorando. E, sob esse aspecto, a ciência é um reflexo da evolução do próprio ser humano, em constante aprimoramento. A mecânica newtoniana já foi tida como irrefutável, até que veio a teoria da relatividade.

Porém, deve-se separar o que é ciência do que é pseudo-ciência.

Recentemente, uma amiga chegou chocada de uma reunião com um matemático estatístico para discutir sua tese de doutorado. Nela, o matemático indagou o que ela queria provar. Ela afirmou qual era a sua hipótese, e ele a orientou sobre como dispor os números para provar sua tese. O choque dessa amiga veio porque ela ainda não sabia se sua premissa seria comprovável ou não. Mesmo assim, o matemático já assegurava que o resultado seria positivo.

Partir de um resultado já pronto, e tentar justificá-lo, é a antítese de tudo o que se entende por ciência, a começar pelo próprio método científico. Isso não é ciência, e sim pseudo-ciência.

Infelizmente, no meio criacionista-fundamentalista, isso é muito comum. Parte-se da premissa de que a terra tenha, literalmente, 6 mil anos de 365 dias cada, e que o relato de Bereshit (Gênesis) seja absolutamente literal. A partir daí, tenta-se encontrar dados supostamente científicos para justificar tais teorias.

E, evidentemente, quem procura acha. Mas não é assim que se encontra a verdade. Nem nas Escrituras, nem fora delas.

Ou seja, o que deve refutar um postulado científico é o contínuo processo de aprimoramento do conhecimento e de suas técnicas, e não a agenda teológica de grupos fundamentalistas.

A ciência, como diz Rambam – a mesma ciência que fascinava e era buscada por grande escrituralistas como Bashyatsi, deve nos ajudar a entendermos cada vez melhor o Eterno, as maravilhas da Sua Criação, e nos ajudar a perceber desvios interpretativos.

Na realidade, nada melhor do que a própria ciência para combater o ceticismo e a arrogância humana. Quando observamos coisas como a Teoria do Design Inteligente, e lemos os relatos dos cientistas de porque eles têm certeza da existência do Eterno, não podemos deixar de nos maravilharmos diante dAquilo que Ele criou.

Existem cientistas ateus que querem desprovar o Tanakh? Sim, é claro que existem. Mas, da mesma forma que os fundamentalistas que acreditam que a terra tem 6 mil anos, toda pessoa que tenha uma agenda pré-definida, ao invés de se ocupar da busca pelo conhecimento da verdade, deve ser simplesmente ignorada. Nem por isso se deve jogar fora o conhecimento científico.

Fato é que, se alguém almeja fazer do povo de Israel o seu povo, e buscar pautar-se pelas Escrituras, recomenda-se fortemente que esteja aberta a reconhecer a grandeza do Eterno no amor pela verdade como um todo, ao invés de se prender a dogmas de sua religião antiga.

Aliás, não à toa, o povo judeu tem talvez a maior quantidade de produção científica per capita dentre todos os povos da terra.

Encerro esta reflexão com as palavras de Mishlê (Provérbios):

“Com a sabedoria se edifica a casa, e com o entendimento ela se estabelece; E pelo conhecimento se encherão as câmaras com todos os bens preciosos e agradáveis. O homem sábio é forte, e o homem de conhecimento consolida a força.” (Mishlê/Provérbios 24:3-5)

Shalom a Todos
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