Polêmica ou Parcialidade?




I – A Polêmica

Recentemente, um famoso pastor evangélico esteve num programa de entrevistas, e causou furor ao anunciar suas opiniões. Especialmente no que diz respeito à homossexualidade.

Quero primeiramente falar sobre de que ponto de vista eu escrevo: O referido pastor é praticamente a encarnação de tudo que eu particularmente abomino. Arrogante, grosseiro, abusador de falácias ao argumentar (em especial, apelos à força e à emoção), um tanto estrela, e representante de uma das vertentes religiosas que eu mais detesto, para dizer o mínimo.

Ou seja, nas palavras de um famoso deputado, é uma pessoa que “provoca em mim os mais primitivos instintos”, tal a fúria me desperta.

Mas o texto não tem intenção de ser um desabafo contra o referido pastor. Essa pequena introdução serve apenas para estabelecer a partir de que ponto eu avalio a situação, e deixar claro que o ser em questão seria uma das últimas pessoas a despertar a minha simpatia ou o menor dos sentimentos de solidariedade.

Isto posto, esta semana li uma notícia de que a há na Internet um abaixo assinado circulando e pedindo a cassação do registro de psicólogo do referido pastor. Uma vez que, para o Conselho Federal de Psicologia, é proibido tratar a homossexualidade como transtorno psíquico. E, para tornar as coisas ainda mais polêmicas, o mesmo site (que em tese é neutro) excluiu semelhante abaixo assinado defendendo o referido pastor.

É tentador se levantar contra uma pessoa tão insuportável! Mas, o que o Tanach tem a dizer a esse respeito?

II – Conceitos Relevantes

Vejamos duas passagens que são bastante relevantes para essa situação:

“Não farás injustiça no juízo; não favorecerás o pobre, nem honrarás o poderoso; com justiça julgarás o teu próximo.” (Vayicrá/Levítico 19:15)

Já vimos recentemente, noutra reflexão, essa recomendação da Torah com relação ao juízo reto. Porém, é nos provérbios dos sábios que encontramos a pérola abaixo:

“Estes também são os dizeres dos sábios: Discernir rostos [haker panim] em juízo não é bom.” (Mishlei/Provérbis 24:23)

Procurei deixar o passuk (versículo) abaixo com a tradução mais literal possível. Algumas traduções trazem “discernir pessoas”, e a ideia não está errada, pois é isso mesmo que quer dizer a expressão idiomática do hebraico.

Contudo, para fins de melhor compreender o que está sendo dito, atentemos para as palavras originais: discernir faces.

Isso significa que o meu juízo não pode depender do rosto de quem está sendo avaliado. Em outras palavras, ver a face de uma pessoa que me é antipática não pode alterar o resultado do meu juízo de valores.

Muitos anos atrás, quando ainda fazia meu pré-vestibular, uma professora de redação foi indagada sobre se as ideias políticas expressas no conteúdo da redação poderiam influenciar na nota do aluno.

A professora, dotada de rara sinceridade, afirmou: ‘Em tese, deveríamos avaliar a parte linguística da redação, e não suas ideias. Porém, se você for um desgraçado de um nazista, seu dez pode virar um oito.’

Ora, se por ‘nazista’ ela queria dizer que o aluno cometia algum crime, então cabia a ela reportar o caso à escola, aos pais, ou às autoridades de direito. Jamais, contudo, caberia a ela se deixar influenciar pela pessoa do aluno, expressa em suas ideias, se o que estava sendo avaliado era o uso da língua.

Na entrevista, o referido pastor expressou uma opinião pessoal. Ele não se apresentou em quanto psicólogo, nem tampouco até o momento surgiu qualquer indício de que tenha clinicado de forma contrária às recomendações do CRP.

Se não cometeu ofensa aos parâmetros do CRP, então está sendo julgado não por suas ações, mas por outros parâmetros. Talvez porque ele seja uma figura extremamente antipática; ou talvez porque infelizmente nem todos aceitam que a democracia traz pluralidade de valores.

Mal comparando, seria como se eu denunciasse à polícia por antissemitismo um católico que diz que acha que os judeus estão errados e que sua religião é o único caminho. Por mais absurdo que eu, como judeu, possa considerar esse comentário, há um abismo enorme entre uma convicção pessoal e um ato criminoso. A forma de lutar contra tal situação seria procurando esclarecer, argumentar, ser razoável, e não tentando amordaçar a pessoa para que não mais expresse suas opiniões.

É tão ingênuo supor que alguém que ache errado o ato de um homem ter relações com outro seja homofóbico, quanto supor que alguém que ache errado pessoas terem relações antes do casamento seja solteirofóbico; ou que alguém que acredita que a veneração católica por imagens seja pecado possa ser considerado catolicofóbico.

Seja qual for o verdadeiro motivo por trás do levante contra o referido pastor, uma coisa é certa: Ou se traz provas de tal coisa, ou a acusação feita não é justa.

III – Conselhos Práticos

Falando em linhas mais gerais, precisamos tomar cuidado. A todo momento, nós julgamos e processamos as informações que chegam até nós. Mas nem sempre é fácil ser imparcial e não fazer discernimento de faces.

Se fosse fácil, não precisaria ser revelado por Elohim. A revelação nos alerta, e precisamos procurar fazer esse exercício. Abaixo, algumas reflexões pertinentes:

Será que pagamos mais a um funcionário que é simpático do que àquele que é mais carrancudo?

Será que interpretamos uma ação da pior maneira possível, sempre que ela é realizada por uma pessoa que não gostamos, e ao mesmo tempo procuramos justificar ações negativas de pessoas de quem gostamos?

Ao nos levantarmos contra algo que foi dito, ou realizado, estamos mesmo nos levantando contra o dito ou ato? Ou será que temos uma agenda oculta, baseada no nosso desprezo pelos demais?

E se percebemos que fazemos discernimento de faces, como evitar isso? Há uma dica interessante:

No filme “Tempo de Matar”, o personagem de Samuel Jackson mata, num acesso de loucura, os estupradores e espancadores de sua filhinha de 11 anos. Num estado tomado pelo ódio racial, o advogado de defesa do personagem de Samuel Jackson consegue inocentá-lo fazendo algo muitos simples: Pedindo ao juri que imaginasse que a criança era branca.

Se é difícil não discernir faces, imagine que a palavra ou ação veio de outra face. Assim, certamente, você conseguirá ter um posicionamento mais equilibrado.

“Nâo sejas uma testemunha contra teu próximo sem causa; e não enganes com teus lábios.” (Mishlei/Provérbios 24:28)
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