Ansiedade pela Jornada



1280x1024sc1“E os filhos de Israel fizeram conforme a tudo o que YHWH ordenara a Moshe; assim armaram o arraial segundo as suas bandeiras, e assim marcharam, cada qual segundo as suas gerações, segundo a casa de seus pais.” (Bamidbar/Números. 2:34)
É normal que ao se depararem com o princípio do livro de Bamidbar (Números), as pessoas se sintam ansiosas para irem adiante. Trechos que se referem a genealogias, ou à contagem e divisão do povo em seus clãs, famílias e tribos, costumam gerar um desejo de que se chege logo “ao que interessa”, geralmente uma narrativa ou um texto que contenha alguma instrução.
Ainda mais quando esses textos fazem parte de algum sistema de leitura regular, como por exemplo uma parashá (no sistema anual mais recente) ou uma sedrá (no sistema trienal mais antigo). Mesmo quando não dizemos em voz alta, é comum pensarmos: E agora, o que vou extrair de ensinamento disso? Melhor passar logo para uma parte mais relevante.
Penso que esse sentimento de ansiedade para chegarmos logo a algum lugar supostamente mais interessante nos permite sentir um pouco, mesmo que bem levemente, a ansiedade que nossos pais sentiram ao se depararem com a jornada adiante deles.
Bamidbar (Números) começa com o povo acampado no deserto do Sinai. Nada mais natural, após a saída do Egito e a recepção da Torá, que o povo estivesse ansioso para seguir logo viagem. Caso se apressassem, poderiam chegar à terra da promessa em alguns poucos dias. No entanto, YHWH faz o povo parar e se organizar de uma maneira singular.
Observe que todos os homens são contados, e o total ultrapassa os 600 mil! Não entrarei aqui no mérito de se o número é literal, que parece ser algo mais da nossa cultura, ou simbólico de uma enorme quantidade, que seria algo aparentemente mais alinhado com a cultura semita. Fato é que era muita gente, e a Torá diz que eles foram todos contados, e organizados segundo suas tribos, segundo a casa de seus pais, e em uma posição específica. E tudo isso muito antes de poderem seguir viagem.
A principal e preciosíssima lição disso, portanto, está na preocupação de YHWH para com o fato de que até o detalhe do detalhe deveria estar em ordem, para que apenas o melhor pudesse suceder para com o Seu precioso povo. O detalhe, que nos enfadonha e que nos deixa ansiosos, é algo de extrema importância para Ele.
Não temos culpa de estarmos inseridos numa cultura da pressa. Lembro-me de alguns anos atrás que uma rede de fast food lançou uma campanha onde se você não fosse atendido em 45 segundos (!!!), seu lanche sairia de graça. Isso ilustra o absurdo do rítmo que a sociedade em que vivemos impõe sobre nós. Não há tempo para detalhes. Não há tempo para o preparo. No entanto, não é assim se desejamos ter qualidade de vida.
A Torá não nos ordena que não sintamos ansiedade (como algumas religiões o fazem), pois seria absurdo achar que temos tal domínio consciente sobre nossas emoções. Mas a Torá nos ensina a controlarmos nossas ações, e a pararmos e a prestarmos atenção nos detalhes do que YHWH deseja de nós. Mesmo que, para isso, seja necessário exercer controle sobre nossa ansiedade pela jornada.
Shlomo haMelech (o rei Salomão) nos ensina:
Prepara de fora a tua obrae aparelha-a no campoe então edifica a tua casa.” (Mishlei/Provérbios 24:27)
É exatamente o que YHWH ordenou a Moshe que fizesse com o povo. Planejamento, preparo, antes de seguir viagem.
Trazendo esta lição para nosso cotidiano, temos um valioso ensinamento: Antes de tomarmos qualquer ação, coloquemos as coisas em ordem. Verifiquemos cada detalhe daquilo que pretendemos fazer. Paremos e pensemos: Que preceitos da Micrá (Escritura) se aplicam ao que estamos querendo fazer? Busquemos respostas, façamos planos, e oremos antes de agir.
Então, e só então, é tempo de começar a jornada.
Shalom a todos!
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