Entrevista com um escrituralista… rabínico?!

entrevista

Ele se levanta após passar um período prostrando-se, em oração. Ele enfatiza a importância do estudo do Tanakh e das práticas antigas. Apóia práticas como o direito das mulheres de usarem talit no Kotel (Muro das Lamentações). Ele se declara um escrituralista, e contrário a muitos excessos cometidos em nome da ortodoxia.
Mas, Uriel Baruch, um judeu norte-americano de Connecticut, é um judeu de linha rabínica. E de uma linha religiosa – que muitos chamariam de ‘ortodoxa’ (embora ortodoxia seja um termo ashkenazi).

Como isso possível? Como pode um judeu rabínico se considerar escrituralista?
Como Uriel é um amigo pessoal, resolvi fazer com ele uma pequena entrevista para poder lhes contar essa história. Espero com isso, também, dirimir alguns mitos acerca de conceitos que são muito mal compreendidos por uma série de pessoa. A entrevista foi feita em inglês, e traduzida por mim.
Recentemente, no site principal, falei sobre a questão de diferentes linhas judaicas que buscam, cada qual à sua maneira, a melhor forma de servir ao Criador (vide link aqui). Nesse espírito, é sempre uma experiência positiva conhecer como judeus de diferentes linhas encaram a questão.
Peço ao leitor que não veja a entrevista abaixo no espírito de concordar ou discordar, mas sim de procurar compreender a experiência religiosa alheia, de modo a fortalecermos a nossa identidade como parte de um povo único, mesmo quando há diferenças entre nós.
Vale ressaltar que o conteúdo da entrevista expressa a opinião do entrevistado, a partir da sua perspectiva religiosa, e não da perspectiva religiosa do autor deste blog.
1 – Você se considera um escrituralista. Pode esclarecer por que?
Uriel Baruch: Para mim, significa que a Escritura Hebraica, o Tanakh – e em especial a Torah – não apenas é a base do meu sistema de crenças, mas também as leis pelas quais eu vivo a minha vida diária. Não existe autoridade maior espiritual/legal além da Torah escrita.
2 – Você entende que os sábios do Talmud eram escrituralistas?
Uriel Baruch: Certamente! O que chamamos de “Judaísmo Ortodoxo” na realidade é um movimento que se desenvolveu na Europa. Em especial, no Leste Europeu.
Mas em lugares como o Iêmen e a Síria, o antigo sistema rabínico de estudo foi preservado. Antes de alguém se aproximar do estudo do Talmud, tinha que memorizar todo o Tanakh e a Mishnah!
O ponto fundamental do Talmud é derivar leis da Torah escrita. Os éditos rabínicos são apenas apoios para isso, e de importância secundária com relação à Torah escrita.
3 – Tradicionalmente, as pessoas associam ser um escrituralista com ser um caraíta. Você pode me dizer por que não é um caraíta?
Uriel Baruch: Respeito os Caraítas, mas sou um Judeu Rabínico porque eu acredito que o Judaísmo Rabínico é o mais fiel para com as Escrituras Hebraicas.
O estudo do hebraico e das Escrituras, a meu ver, confirma que o Judaísmo Rabínico é a melhor opção.
Na realidade, o termo “rabínico” também talvez não seja o melhor termo. Pode-se dizer que somos “shofetistas” porque aceitamos os shofetim (juízes) de Israel.
4 – Caraítas frequentemente criticam o estado atual do Judaísmo normativo, dizendo que existe uma grande quantidade de acréscimos humanos, sem nenhuma autoridade. Você partilha dessa crença? Por que?
Uriel Baruch: Sim, eles fazem críticas muito válidas, e eu concordo com eles até certo ponto. Uma boa parcela do Judaísmo de hoje perdeu quase que totalmente a verdadeira tradição talmúdica. Por causa da incompreensão deles de como a Lei Judaica funciona, muitas práticas e crenças foram inseridos, muito além do escopo daquilo que os sábios talmúdicos desejavam.
5 – A maioria dos críticos da chamada Torah Oral afirmam que não há base na Torah escrita para supor que uma grande Revelação Oral foi dada a Moshe no Sinai. Eles também dizem que o Talmud afirma ser tal revelação, mas não possui autoridade, tal como a estabelecida pela frase “Assim diz o Senhor”. Como você vê isso?
Uriel Baruch: O Talmud nunca alegou ser do Monte Sinai. O Talmud não tem nenhuma santidade no Judaísmo, exceto para pessoas confusas que não entendem, ou se atêm a termos não literais.
O Talmud contém muita coisa, e o que realmente é considerado legalmente obrigatório são as decisões das cortes dos Anciãos de Israel
Muito se fala sobre a ideia de Moisés ter recebido mandamentos extras, mas na realidade a quantidade de decretos que podem ser atribuídos a ele são apenas trinta, e a maioria das pessoas os acharia pouco interessantes. Muitos dos quais se referem a unidades de medida, situações muito específicas (ex: o dízimo para judeus vivendo em Moabe), instruções sobre o pergaminho da Torah, etc.
Para Maimonides, não necessariamente o termo Halakha leMoshe MiSinai é literal. Pode se referir a tradições muito antigas. A principal característica é que esses cerca de 30 decretos é que não podem ser deduzidos através de princípios hermenêuticos.
O restante da chamada “Torah Oral” nada mais se refere do que às decisões das cortes dos Anciãos de Israel, e todas elas podem ser derivadas através da hermenêutica, a partir do texto bíblico.
Independentemente da questão de se Moshe recebeu mandamentos extras ou não, está claro nas Escrituras que as cortes nacionais foram investidas de certa autoridade. Os Anciãos de Israel até mesmo davam mandamentos às pessoas em conjunto com Moshe, dando a eles um certo nível de autoridade espiritual escriturística, da qual não devemos nos desviar. Essas cortes também foram autorizadas a tomarem decisões que devemos seguir, para poderem lidar com as mudanças que o povo judeu iria enfrentar no futuro. Essa organização, nos tempos romanos, era conhecida como o Grande Sanhedrin.
Somos ordenados pela Torah a seguirmos as decisões de uma corte nacional legítima, e é um princípio talmúdico que um édito rabínico NUNCA deve ter precedência sobre uma miswah bíblica.
Logo, não há contradição entre ser um escrituralista e seguir os éditos do Talmud.
6 – Muitas pessoas criticam coisas como o tefilin, afirmando que ninguém é capaz de derivar tal entendimento a partir do texto da Torah. O que você tem a dizer sobre isso?
Uriel Baruch: Acredito ser injusto, uma vez que as pessoas não têm problema nenhum em tomar a frase “e os escreverás em vossos umbrais e vossos portões” literalmente. Mesmo assim, não existe evidência de uso do tefilin antes do Segundo Templo.
Essa foi provavelmente uma nova prática. Porém, Israel tinha uma Corte Nacional naqueles dias, a qual determinou baseado numa justificativa escrituralista (mesmo que essa não seja a interpretação literal do texto) que os homens deveriam colocar tefilin para lembrarem desta miswah, e determinaram que essa é uma regulação escrituralista, visto que o princípio governante é o de ser estrito quando temos dúvidas quanto a mandamentos bíblicos.
Para mim, uso tefilin para me lembrar de observar os mandamentos em minha mente e em minhas ações. Os tefilin eram originalmente usados o dia todo como lembrete constante disto, tornando os mandamentos difíceis de serem ignorados.
7 – É verdade que os Rabanitas da antiguidade “adicionavam à Torah” como bem entendessem? Existe uma diferença de peso entre a Torah de Moisés e as decisões dos sábios?
Uriel Baruch: Eles não adicionaram nada à Torah. O termo “Torah Oral” não tem nada a ver com o termo Torah quando se fala de Torah escrita. Até porque “torah” significa simplesmente “instrução”.
O Torah Oral, isto é, a instrução dos anciãos, se refere apenas à soberania do sistema da corte de Israel em tomarem decisões válidas para todos os israelitas. Sem esse sistema legal unificador, seria impossível promover a justiça e responsabilizar as pessoas por suas violações.
As decisões dessa corte devem ser seguidas, contudo são secundárias em relação às leis bíblicas, e seu objetivo é proteger as leis bíblicas e manter a sua santidade. E essa autoridade foi concedida a eles pela Torah escrita.
8 – Obrigado por essa entrevista. Existe algo mais que gostaria de dizer aos nossos leitores?
Uriel Baruch: Gostaria apenas de deixar algumas das fontes que usei para dar as respostas aqui indicadas: Ex. 4:27-29, 24:9-10; Nm. 11; Dt. 17:9-11, 27:1
Observem por esses textos que havia duas Cortes Nacionais: O Grande Sanhedrin, dos setenta anciãos das tribos em geral, que lidava apenas com casos em geral. E o Sanhedrin Sacerdotal, que lidava primordialmente com assuntos rituais e relativos ao Tabernáculo (e posteriormente ao Templo), mas que também podia julgar casos.
A última citação deixo aqui na íntegra:
“E também estabeleceu Jeosafá a alguns dos levitas e dos sacerdotes e dos chefes dos pais de Israel sobre o juízo de YHWH, e sobre as causas judiciais; e voltaram a Jerusalém. E deu-lhes ordem, dizendo: Assim fazei no temor de YHWH, com fidelidade, e com coração íntegro. E em toda a diferença que vier a vós de vossos irmãos que habitam nas suas cidades, entre sangue e sangue, entre Torah e miswah, entre estatutos e juízos, admoestai-os, que não se façam culpados para com YHWH, e não venha grande ira sobre vós, e sobre vossos irmãos; fazei assim, e não vos fareis culpados.” (2 Cr. 19:8-10)
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