Lendo as Escrituras: Profecia e Mandamento


recorteecoleRecentemente, após indicar que nem o Tanach (as Escrituras Judaicas) nem o Judaísmo em geral têm uma visão de que as mulheres não tenham potencial para, ou possibilidade de, trabalharem e adquirirem cargos de liderança, fui surpreendido com certa controvérsia acerca do tema.
O que me surpreendeu, na realidade, não foi tanto a discordância. Até porque não é raro que as postagens sejam lidas por pessoas de outras religiões, que frequentemente têm opiniões divergentes, ou mesmo se baseiam em outras obras religiosas que não a Torah para pautarem seus conceitos.

Quero inclusive deixar claro que não apenas respeito o participante muitíssimo, como também sou grato que o questionamento tenha me motivado a escrever sobre o tema. Aliás, pretendo a partir desta mensagem, compartilhar alguns pontos importantes para auxiliar na compreensão das Escrituras, na forma de uma série de pequenos artigos.
O que me surpreendeu foi a ideia de que a passagem abaixo pudesse ser tomada como mitsvah (mandamento):
“E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.” (Bereshit/Gênesis 3:16)
Entendo que talvez essa possa ser uma dúvida de muita gente, e é fundamental aproveitar a oportunidade para transformar a dúvida em algo produtivo.
O contexto aqui é uma maldição, e não uma mitsvah (mandamento). Como coloquei na discussão em si, isso fica claro quando consideramos que não existe mandamento quanto à obrigatoriedade da mulher sentir dor no parto. É apenas algo que ocorre naturalmente.
Semelhantemente, a sedução e incitação ao pecado por parte da mulher no texto do Eden – e nesta reflexão não entrarei no mérito de se o texto é poético ou literal – traz como consequência algo que efetivamente ocorreu: a mulher sofreu, e sofre, com sexismo até os dias de hoje, embora isso venha gradativamente se reduzindo ao longo do tempo.
Embora o papel da mulher seja uma questão importante, creio que existe ainda outra de maior importância que precisa ser levada em consideração: A maneira adequada da leitura das Escrituras. Pois isso pode estar na origem de inúmeros problemas e dificuldades teológicas.
Um dos pontos mais fundamentais para a compreensão das Escrituras é fazer algumas perguntas básicas sobre o texto. Nada de muito complexo: Quem escreveu? Para quem? Quando? O texto é prosa ou poesia? Possui elementos figurativos? É uma visão ou é uma descrição? É uma profecia? É um mandamento? Quanto mais informação você tiver sobre isso, melhor será sua compreensão do texto.
No tópico em questão, percebi uma confusão entre mitsvah (mandamento) e nevuah (profecia). Para ilustrar a diferença, separei alguns exemplos abaixo indicados:
“E disse YHWH: Assim comerão os filhos de Israel o seu pão imundo, entre as nações para onde os lançarei.” (Yechezkel/Ezequiel 4:13)
- Essa profecia se cumpre hoje, pois Israel na diáspora tem muita dificuldade de comer alimentos com contaminação zero, e muitos até optam por comer treifah (animais imundos). No entanto, se tomássemos essa profecia como mitsvah (mandamento), teríamos que supor que a kashrut (leis alimentícias) foi abolida, o que seria uma transgressão à Torah.
Outro exemplo:
“Desposar-te-ás com uma mulher, porém outro homem dormirá com ela; edificarás uma casa, porém não morarás nela; plantarás uma vinha, porém não aproveitarás o seu fruto.” (Devarim/Deuteronômio 28:30)
- Essa profecia também se cumpriu. Nas diásporas, guerras e perseguições, muitas mulheres foram abusadas, ou tomadas por outros povos. Casas ficaram para os dominadores, assim como suas plantações. Se tomássemos essa profecia como mitsvah (mandamento), teríamos que supor que é obrigação de Israel fazer tais coisas.
Como podemos, então, diferenciar uma nevuah (profecia) de uma mitsvah (mandamento)?
No que diz respeito a mitsvot (mandamentos), observe a estrutura linguística:
“Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: As solenidades de YHWH, que convocareis, serão santas convocações; estas são as minhas solenidades.” (Vayicrá/Levítico 23:2)
“E esta é a Torah do sacrifício pacífico que se oferecerá a YHWH.” (Vayicrá/Levítico 7:11)
Essas introduções são seguidas de frases imperativas, que contêm instruções. Não é o caso das nevuot (profecias), que simplesmente contêm declarações do que irá acontecer, independentemente de qualquer ação humana.
Concluindo, é fundamental discernir as coisas quando se estuda as Escrituras. Mitsvah (mandamento) é mitsvah, e nevuah (profecia) é nevuah.
Semelhantemente, livros de outras religiões tomam tehilim (salmos), tiram do contexto original e chamam de nevuah (profecia), visto que a linguagem mais poética dos salmos às vezes é abstrata o suficiente para que alguns tentem nela encaixar conceitos.
Antes de nos ocuparmos em aprendermos as Escrituras, é preciso aprendermos a ler as Escrituras de forma a podermos dela extrair os conceitos que irão transformar as nossas vidas. As Escrituras têm potencial de transformarem profundamente a vida do ser humano, tornando-o uma pessoa melhor e ajustada ao caráter de Elohim. Ou têm o potencial de trazer sobre ele, e sobre sua comunidade, consequências desastrosas. Bastando, para tanto, uma leitura menos cautelosa.
PROXIMA
ANTERIOR
Click here for Comments

0 comentários: